terça-feira, 21 de maio de 2013

31 de Janeiro: A verdade tarda em aparecer, mas vai vir ao de cim...

31 de Janeiro: A verdade tarda em aparecer, mas vai vir ao de cim...: Começa a vir ao de cima a verdade e esta é como o azeite, mais tarde ou mais cedo vem sempre ao de cima. Ainda vamos ver mais e muito mais...

É espantoso ler aqui como esta catástrofe é culpa exclusiva da "direita tramontana" e da "esquerda radical", vá lá saber-se o que é isso. Mas ainda  mais espantoso foi eu ter lido há poucos dias o desabafo no escrito de um pai a que ele deu o título "os meus filhos são socialistas". Recomendo-o vivamente ao autor deste blog para ver se, de vez, aprendemos e nos revemos todos (como exceção deixaria de fora os agricultores do país interior que nada percebem de política e continuam a lavrar e semear a terra; e outros trabalhadores que também nada percebem de política e continuam a mourejar) neste estado coisas deveras calamitoso e nesta situação que vivemos. Enquanto assim continuarmos e não nos unirmos todos (principalmente os que fazem desta partidocracia arrepiante e oportunista na "direita tramontana" e a outra, a que faz parte dos socialistas iluminados e cegos seguidores de Sócrates, e que posso denominar de "esquerda vesga e zarolha") continuaremos a repetir os defeitos e erros do passado, já denunciados por Eça, Guerra Junqueiro e muitos mais. Na verdade apenas precisamos, não de uma história "narrativa" à moda de Heródoto mas sim de uma história "pragmática" à moda de Tucídedes para corrigir esses erros. Mas será que estes políticos que temos estão nisso apostados? Será que querem dar tiros nos pés, o mesmo é dizer perderem mordomias e os "tachos" que ocupam? Agradeço ao meu amigo e "camarada socialista" que fez o favor de me redirecionar este blog, ele sabe que adoro política, mas que detesto este tipo de política de quem olha o argueiro no olho do vizinho. E também adoro este tipo de polémica, felizmente sei pensar e analisar por minha cabeça e, se gosto de foguetes, já não tenho idade para correr atrás das canas. Tempos houve, quando era criança, e isso deliciava-me.

31 de Janeiro: PORTUGAL A EMPOBRECER

31 de Janeiro: PORTUGAL A EMPOBRECER: Tudo começou com a crise do sub-prime nos Estados Unidos em 2008, e aí Portugal tremeu como todos os Países Europeus, mas resistiu e res...

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Por terras longínquas do Médio Oriente



1 Diz-se – e eu acredito – que quando Deus fecha uma porta abre-nos uma janela. Neste caso, posso até garantir que Deus só empurrou e encostou a porta, quem depois a fechou fui eu e conto já, a úlrima palavra é nossa e o nosso destino depende do livre arbítrio que Ele nos concedeu. Em 2008, quando a crise já assomava, também ela, à nossa janela (a reação chegaria tarde e a más horas, só em 2011), o meu filho mais novo, acabada a universidade  e a trabalhar numa multinacional em Lisboa, pediu-me conselho se deveria aceitar ou não uma proposta de contrato de trabalho no Médio Oriente que lhe era soprada pelo seu tutor de estágio de curso que fizera na Bélgica. Aí, eu lembrei-me dos tempos difíceis de meu pai e avô, emigrantes em L. Marques (Maputo) e no Rio de Janeiro. E recordei o tempo em que fui, também eu, obrigado a emigrar para Angola “rapidamente e em força”, em permanência na exótica cidade de Luanda. E resignei-me com a nossa sina de, ao longo dos tempos, desde o século XV, muitos de nós termos alimentado a diáspora lusíada. O meu pragmatismo inato também me dizia que o melhor seria ele arriscar e partir, a crise chegaria em força para ficar anos, nem sequer intuí que estava já a antecipar outro conselho, também sincero, pragmático e lúcido, de um secretário de Estado a entusiasmar a juventude a dar o salto, conselho não “piegas” e tanto borburinho levantou. Que diabo, quando era novo, Salazar odiava a emigração, refreava-a por todos os meios e muitos tiveram de ir a salto à procura da Europa rica que lhes proporcionasse maior fortuna e melhor vida que a que tinham na miséria de país onde então viviam. Terei de concluir que Salazar foi políticamente correto e o nosso jovem secretário de Estado não?

E por que ou para que é que Deus, escrevi eu atrás, nos abriu, a mim e minha mulher, esta janela? Exatamente por que, perante uma ameaça (ausência) há sempre uma oportunidade (visita) e assim podemos vir, todos os anos, abraçar o nosso filho (e a nora) cá longe donde escrevo esta crónica, também para poder fugir ao frio agreste que sopra por aí do ártico glacial europeu, limitar ao mesmo tempo a fatura da EDP e, já agora, correr mundo, ver o que se passa, vasculhar outra civilização, mudar a rotina da nossa vida de reformados, poder ver amanhecer mais cedo e acertar o fuso horário (mais quatro horas) e, mais importante, poder somar uns bons 15º centígrados à escala do termómetro. Ah! E, enquanto escriba da GB, contar ao leitor que estamos  defronte ao estreito de Ormuz, que nos separa do Irão e um pouco abaixo do seu sítio mais apertado, território por onde, imaginem a aventura, andou há 500 anos o nosso grande Afonso Albuquerque.

Fortaleza em Muscat (Oman)
2 Por falar em Afonso de Albuquerque, recordo que este vice-rei escolhera uma belíssima enseada e porto de mar um pouco antes deste estreito, na costa do Índico, para abrigar a sua frota, no lugar de Muscate (atualmente a capital do sultanato de Oman). Para o leitor se situar melhor, direi que naquele estreito temos, além dos sete Emiratos Árabes Unidos (Abhu-Dabi, Dubai, Sharja, etc), também o Quatar, o Bahrein, o Kuweit, o Iraque, a Jordânia e a Síria (agora em grande polvorosa). Do outro lado, o supostamente poderoso Irão (antiga Pérsia), inimigo fidagal dos USA e dos maiores produtores de petróleo. Faz parte desta península arábica, além dos EAU e de Oman, cujo território vai desde o estreito até ao Yémen, a sul, ainda a imensa e muito desértica Arábia Saudita, o mais extenso daqueles territórios, todos eles entre Ormuz e o Mar Vermelho. E foi na bonita cidade de Muscate que pude ver, deliciado e encantado, duas belíssimas fortalezas (uma na foto acima) e vários fortins   na já referida enseada, todos com o traço da arquitetura lusíada e que são hoje, pude comprová-lo, “ex-libris” e meninas dos olhos do povo e nação Omani, bem reconstruídos e requalificados (dizem-me que a Gulbenkian terá dado uma ajuda). Então, à noite, iluminados no topo das duas encostas, um de cada lado à entrada do porto de mar, são um espanto que enche a alma de qualquer português e, obviamente, dos Omani. Num dos museus da capital, pude ver a história de Muscate e ler, com algum calafrio e a olhar desconfiado para o lado, que “os portuguesses bombarderam com ferocidade o porto de mar, cortando orelhas e narizes aos nativos”. Mas já não resta animosidade, pelo que senti quando dizia que era português, o povo Omani é extremante educado e hospitaleiro, e, quem sabe, terá sangue português a configurar-lhe a genética por que por aqui  estivemos 150 anos, três gerações. E sabemos que o português deita-se em qualquer sítio, não faz cerimónia e não desdenha companhia, seja ela de que raça e credo for e também deixou semente que pudesse frutificar por onde andou navegando. Só uma coisa me espanta, hoje, e para a qual não tenho resposta: como é que, há 500 anos, foi possível inovar e fazer o que fizemos e, agora, numa civilização fortemente avançada, não saímos da cepa torta e andamos sempre, “piegas”, de mão estendida a pedinchar? Porquê?

3 Tracei a geografia do local por que estou numa zona efervescente e, dizem os mais entendidos, prestes a ser protagonista do início da terceira guerra mundial. Não creio que esta seja uma guerra de armas (o risco seria intenso e com consequências impensáveis) mas, entre julho e agosto próximos, por força do bloqueio ao petróleo iraniano, acabam os principais contratos de fornecimento e o Irão poderá retaliar se acurralado e com o seu comércio em risco caindo na asneira de fechar o estreito, ao largo do qual estão frotas americanas e inglesas, entre outras. Ontem as especiarias, hoje o petróleo, o estreito de Ormuz é palco de árduas batalhas comerciais e diplomáticas. È certo que o Irão tem a seu favor a Rússia e a China, também a Síria (mas, a braços com a revolução nas ruas, pouco poderá fazer). E eu nem vejo como a China e a Rússia, com fortíssimos investimentos na Europa e na América do Norte, possam pender para o lado do Irão. Mas, em política, tudo é possível. Certo, certo, o mundo não irá continuar como está, este capitalismo tem de ser fortemente regulado e redirecionado, o Mundo será forçado a encontrar melhores soluções para a distribuição das matérias-primas e da riqueza (vejam-se as revoluções por todo o lado e os indignados).  Soluções diplomáticas, de paz e bom senso para não darmos razão aos que dizem (profecias dos Maias) que o Mundo acaba já em Dezembro próximo. Juízo, por favor e, já agora e por agora, que Deus nos abra todas as portas e janelas.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012


Sinais dos tempos!

| António Castanheira Gouveia | acfgouveia@gmail.com
A
 Bíblia fala dos sinais dos tempos. E Mateus, o apóstolo, explica-nos que sabemos avaliar o aspeto do céu, adivinhar tempestade ou bom tempo mas, quanto aos sinais dos tempos, não somos capazes de os interpretar. O que significa, então e concluindo, que eles existem e podem estar aí. Desiluda-se quem pense que sou evangelista ou profeta e que vou aqui tentar interpretá-los. Não vou, atento e curioso do que se passa (tenho agora mais tempo para isso), irei apenas divagar um pouco sobre o que se está a passar à nossa volta, julgo serem sinais, e disso dar conta.

Fui a Oliveira ver a minha mãe que tinha dado uma queda no quintal (a velhice não perdoa) e, por tabela, visitar o meu tio Zé, merceeiro na velha praça e irmão mais novo de meu pai que Deus já chamou há muito, um tio já entradote na idade como minha mãe, também uma queda no folhedo do quintal e ainda de cama. Na conversa que sempre se proporciona nestes casos, minha tia Lurdes, mulher de inteligência e cultura tão raras quanto discretas e piedade e bondade a toda a prova (tia por afinidade, filha mais velha do saudoso maestro Joaquim Moreira, não estou a arengar virtudes familiares, seria um despropósito) falou-nos de José, o hebreu que estava ao serviço do faraó e da mulher Putifar, para nos dizer que os tempos que vivemos são tempos de vacas magras. Já o tinha imaginado, até já o tinha escrito em crónica de remissa. Mas não sei se a associação de ideias da tia lhe advinha do nome do marido, José, se dos cortes nas minúsculas reformas de ambos. À tarde, precisando eu de resolver questão burocrática na Conservatória, a Aida, uma das simpáticas ajudantes, quis ser gentil comigo e confidenciou-me que me gostava de ler aqui na Gazeta. Sorri e agradeci, palavra puxa conversa, também ela me falou de José, o filho de Jacob vendido pelos irmãos que fora levado para o Egito, e dos sete anos de vacas magras que ora iniciámos, depois de anos de vacas gordas. Coincidência! – Pensei eu – é a segunda pessoa a falar-me, talvez porque o Egito fervilha, pensei. Mas os sinais não ficaram por aqui. Ao cair da tarde, antes que o sol se fosse para os lados de Aveiro e o frio apertasse e começasse a derrapar no alcatrão da A25, rumei ao Porto e sintonizei a Antena2. Coincidência, outra vez o Egito, ouvia outra Aida, desta vez, a da ópera com o mesmo nome (gosto do bel canto, um dia hei-de explicar como me apaixonei), aquelas árias melodiosas, os arroubos apaixonados de Radamés, coração dividido também por Amnéris. Curioso, o Egito onde, pela primeira vez, na Casa da Ópera do Cairo, em 1871, esta ópera famosa se fez ouvir, encomendada ao grande compositor e revolucionário italiano de Busseto, Giuseppe (José, ele outra vez) Verdi, pelo governo egípcio para a inauguração do canal do Suez (163 km) e cuja composição não conseguira terminar a tempo do evento (1869).

Muitas coincidências num só dia? Talvez mas ali por altura do Natal, quando incendiaram a igreja cristã copta de Alexandria, onde morreram vários egípcios coptas, braço religioso ancestral cristão, eu próprio vi no facto um sinal dos tempos. Não, repito, não sou profeta, - quem sou eu - talvez um pouco atento. E admirei-me, interroguei-me, como é que um povo com uma história tão rica, uma cultura mais que milenária, Osíris, Horus, Nefertiti, Ramsés, Tutankhamon, Cleópatra, as pirâmides e o papiro, as múmias, os museus e o boi Ápis, o Nilo, Moisés e a fuga encetada mar Vermelho fora, deixava que tal acontecesse? Na altura tive para mim que alguma coisa não batia certo. Um problema similar no Iraque, país em guerra e convulsão, povo em desatino, não espantaria tanto. Mas no Egito … não parecia bem, fiquei desconfiado, confuso. O que é certo é que, poucos meses depois de iniciada a revolução jasmim na Tunísia, esconjurado outro ditador quase trintanário, o rastilho chega ao Egito e ninguém se entende, o povo está em polvorosa nas ruas e nas praças, Mubarak não terá outro remédio do que imitar o tunisino Ben Ali e fugir para longe antes que o pendurem porque as ameaças não faltam.

E o que virá a seguir? E o Iémen? E o Sudão, também em pé de guerra com o Uganda a um passo da independência e o petróleo? E Marrocos? E a Argélia? E a Líbia? E a Jordânia, por aí fora, todas essas nações do norte de África? Decididamente, enquanto revoluções, qualquer democrata moderno só tem que se contentar com o facto. Já não era sem tempo. Mas será que, a seguir - os extremistas muçulmanos, por exemplo - trarão paz, pão e liberdade para estes povos? Não creio. Ou teremos fundamentalistas islâmicos a querer vir por aí acima (o norte de África é perto do Algarve), à conquista do generalife de Granada, da península ibérica que já foi sua, da Europa donde foram expulsos em 1492, mal, foi uma pena - digo eu – eram outros tempos, forte dose de culpa e de hipocrisia, a nossa e tinham estado cá desde 711, expulsos que foram romanos e visigodos? Afinal todos, sem exceção, somos povos perseguidores e conquistadores. Curiosa coincidência o facto de a notável catedral de Córdova, mais conhecida pela sua imponente arquitetura mourisca e seus arcos, ter sido antes igreja visigótica, depois mesquita muçulmana e, mais tarde, catedral cristã. Se já nesse tempo não a queimaram e preservaram todos estes nossos antepassados porque o fizeram em Alexandria os fundamentalistas deste tempo, na cidade antiga de Alexandre Magno, o Grande, urbe de grandes tradições, poiso do maior farol da costa mediterrânica? Responda quem souber que eu não sei, não sou adivinho nem profeta. Mas sinto, com imensa pena, e temo porque, estes sim, são sinais dos tempos que não podermos deixar de ver, completamente estúpidos e de muito difícil interpretação. 

A homenagem merecida ao Dr. Jaime Gralheiro



A homenagem merecida ao Dr. Jaime Gralheiro

António Gouveia

O Dr. António Bica escreveu nas páginas deste jorna ter sido o Jaime Gralheiro um, “não muitos”, inconformados na nossa região, referindo que “nas sociedades, mesmo pequenas como a de Lafões, há sempre quem queira maior participação dos cidadãos nos assuntos públicos para que seja mais justa, mais transparente e todos vivam melhor, mesmo que pouco a pouco”. Ou seja, António Bica referia o Dr. Gralheiro como cidadão inconformado com o que então se passava (estou certo que ele assim continua, como muitos de nós, ainda hoje) mas também como político de mão cheia e no melhor e mais correto sentido da palavra, cidadão zeloso do bem comum, lutador pelo bem-estar, advogado para a satisfação das necessidades dos seus iguais. O Dr. Bica chegou, confessa ele, a S. Pedro para estagiar no escritório de outro ilustre, igualmente inconformado, cidadão lafonense, o Dr. Abílio Tavares, em meados da década 60, acabado o curso de direito em Coimbra.

Curiosa e casualmente, no café Amazónia em Oliveira, no dia desta homenagem (sabia que o PCP a ia levar a cabo mas desconhecia), encontrei o Dr. Bica a fazer horas para rumar a S. Pedro e ali falámos sobre muitas das estórias do passado, algumas ele narrou nesta sua crónica. Falámos do que era a região (e o país) nessa época, do Portugal salazarista, das nossas (povo) dificuldades e mínguas, arrastadas na monotonia dos dias que pareciam longos, do sufoco do regime. Devo recordar que o Dr. António Bica também era um dos inconformados e posso recordar aqui reuniões clandestinas, feitas á noite em sua casa, no edifício que é hoje sede da Assol, onde alguns jovens (poucos) como eu, Francisco Paraíso, Chico Ferreira da Silva e Fernando Laranjeira, outros já não recordo, bebíamos os ensinamentos políticos do mestre um pouco mais velho (a diferença de idades parecia então maior, o que é normal), a propósito da ASPP, associação a favor dos presos políticos e onde o jovem advogado nos dava conta das últimas da política (a censura era apertada, ouvíamos a BBC, a rádio Argel, cantávamos Zeca Afonso e outros, era o nosso modo de conspirar e de dizer revoltados, sobretudo com a falta de liberdade).
Jaime Gralheiro foi um dos ídolos e inspiradores da minha juventude. Conheci-o, era eu catraio, no café do meu tio Aureliano quando ali dava um salto antes ou depois dos julgamentos e, bastante melhor, anos mais tarde, quando saí do seminário – um jovem ingénuo, 16 anos feitos - e pude estagiar no tribunal da comarca, bondade do juiz à época (não recordo o nome e a quem minha mãe, viúva há meses, quatro filhos para criar, que tratava da limpeza e roupa na casa dos magistrados, nos intervalos do seu trabalho na cantina da escola velha, lhe reclamara apoio para mim. Eram então chefes da secretaria e processos, António Sousa, de Manhouce e Abílio Rodrigues, de Cercosa, completando-se o quadro com Manuel Rodrigues (da Guarda), o oficial de diligências ou meirinho (como antes era conhecida a função), Fernando Neves (Terleco) e Carlos Caprichoso e mais um outro cujo nome também já não recordo, ajudantes de escrivão. Eu e o Amadeu (da Videira) éramos estagiários sem qualquer vencimento, ganhávamos umas coroas na passagem dos certificados de registo criminal pedidos com urgência, talvez cinco ou dez escudos e uma ou outra gorjeta. Desta equipa só Abílio Rodrigues vive ainda, a ela devo amizade, bondade e muita gratidão, nessa altura familiar difícil. Foram os meus primeiros mestres, os que me desemburraram, com eles aprendi competências profissionais que muito me valeriam na tropa e no banco, por exemplo, a escrever à máquina e a saber tratar os utentes. Nesses tempos a cultura do “respeitinho” estava facilitada. Aí conheci, como disse, o Dr. Jaime Gralheiro, o seu estilo inconfundível de homem extrovertido, vozeirão e tiradas de humor, homem teatral (pudera, era já dramaturgo, ator e ensaiador) um homem que se me apresentava de bem consigo próprio. Sabia-lhe o esquerdismo desalinhado e desconforme do status quo, às avessas do então cómodo e politicamente correto, uma temeridade, convenhamos, desafiada por entre ameaças da PIDE e dos bufos que por ali pululavam. Ser-se apodado de comunista, na altura, era rótulo que marcava e reduzia homens de bem, um ferrete que afastava cidadãos dos “nossos”, uma palavra cara a Salazar para distinguir a maioria dos seus seguidores, pois, como ele então proclamava, “quem não é por nós é contra nós”. Pessoalmente, piores que Salazar, ditador todo-poderoso e na altura parecendo eterno, eram os salazaristas que queriam ser mais papistas que o papa e mostrar serviço. Talvez por isso eu, bastante jovem, mente formatada à maneira do seminário e da igreja mas sempre refilão (também inconformado, como meu pai, nestas coisas do ADN e genética “ninguém se faz, nascemos todos feitos” como ainda diz minha mãe) mais admirasse o Dr. Gralheiro. Por um lado, aquela sua veia de homem da cultura (este tipo de pessoas sempre me impressionou pela sua sensibilidade e espírito crítico), por outro, aquela grandeza de caráter na coragem, arrojo e destemor para enfrentar o perigo e as ameaças do regime e seus apaniguados que, como referi, eram mais papistas do que o papa. Ser do contra, como se dizia então, era apanágio de poucos, bem o refere António Bica, o medo era muito e nem acredito que as eleições, como a esquerda apregoa, lhe terão dado a vitória, mesmo as de Delgado contra Tomás, apesar das chapeladas do regime. Se é verdade que há muito me distanciei da ideologia marxista, por ultrapassada, melhor, por não reescrita e atualizada, tal não significa que esta, enquanto teoria ideológica e económica, não tenha ideias aproveitáveis, como os conceitos de propriedade e mais-valia, outras formas de distribuição da riqueza, as diferenças entre trabalho e capital (a ordem e importância não é arbitrária). Entendo que há muito deveria ter sido merecedora de reequação e corrigida, revistos e reescritos também os compêndios de Marx e Engels, também o Manifesto. Mas também é verdade que, como escreveu o meu querido amigo António Bica, são, ainda hoje (salvaguardado o sectarismo, o ódio de quem se viu perseguido ferozmente, a ausência de espírito crítico e uma menor mas justificada lucidez racional) também estas pessoas de grande e aberto espírito crítico, as que fazem avançar as sociedades. Porque, não há dúvidas, isso é conhecido na doutrina marxista e no materialismo histórico, elas vão evoluindo positivamente, com mais ou menos recuos, mais ou menos revoluções, mais ou menos contradições. Talvez volte a esta temática, sobretudo para eu poder fazer a minha comparação e contraponto entre o que então pensava e o que hoje penso pois, como escrevi na última crónica, os “prognósticos” em fim de jogo, à maneira do João Pinto do FCP, são sempre muito fáceis.

Terminaria, para dizer que, na conversa de café, eu e o Dr. Bica falámos de muita coisa, da miséria que então se vivia e, até, imagine o leitor (sobretudo se de Oliveira), nalgumas figuras da pobreza local, almas de Deus que apareciam na vila a esmolar. Recordámos a figura ímpar do Adelino de Paredes (Velhas) e, por tabela, também o Quintas (de Pinheiro). Disse ao António que tinha nos arquivos uma velha foto do Tiano (assim tratava o meu tio quando era menino) que, além do café Ideal, tinha na arte da fotografia, aprendida com Edgard Vasconcelos, no café Edgard, o seu hobby quando ali trabalhou. O Dr. Bica incentivou-me a dá-la a conhecer e, por ser um inédito, aqui fica para a posteridade, porque é também retrato dos tempos austeros e difíceis que se viviam na região e ele historiou na sua crónica, o caminho da esmola, a reforma, shopping around dos mendigos. A foto tem pouco mais que a minha idade, meados anos 40, disse-me o tio, foi tirada no café Ideal, do seu interior, vista a conversa animada do duo maltrapilho e estarola (melhor que atolambado) na rua, defronte do muro do quintal do Dr. Arménio Maia e hoje moradia do casal Maia Figueirinhas. Ficarão para outra crónica as muitas estórias do Adelino de Paredes, as estrelinhas que desenhava com gravetos e pétalas no chão da rua, os trejeitos a imitar o maestro Joaquim Moreira, os foguetes que ele, como dizia, com graça e voz muito arrastada “estava a enrrabar” para a festa e alguma tolice com foros de verdade que ia largando e agora não conto. Uma delas ouvi-a gora ao Dr. Bica, não a conhecia. Loucos, eles? E nós somos finos, os que, supostamente sãos de mente e bem equilibrados de tola constroem este mundo de grande loucura? Prometo voltar um dia destes, até porque não me conformo. Também eu detestei a sociedade salazarista mas agora, quando vejo esta tão evoluída, verifico que a política, no aspeto prático, pouco mudou, uma minoria de pessoas bem instaladas e, a esmagadora maioria, gente pobre ou muito pobre. Quem diz que a história não se repete? Salazar ou Sócrates, que diferenças de estilo? Teorias de economia clássica, o pendão salazarista, de um lado, empobreceram-nos; e as teorias keynesianas, de investimento e expansão económica, o pendão (dito) socialista, levaram-nos pelo mesmo caminho.

Oliveira de Frades, conta-me como foi (ou é) – 4

Nesta série de crónicas iniciei a deambulação pelo passado citando B. Franklin, assim: “Para se conhecer toda a melancolia de uma terra é preciso ter-se sido lá criança”. Hoje, tal melancolia é mais saudade ou dor pungente, conformada mas nunca adormecida. Ela vai ao encontro da memória e figura de meu pai, Luís Gouveia, quando se completam exactamente 50 anos (a dia 28) sobre a data da sua morte inesperada, 36 anos feitos há pouco. Peço ao leitor desculpa por o evocar mas, lembrando-o, regresso também ao passado de criança que fui. Mas sem ser piegas. Fizera eu já 11 anos quando ele foi ao seminário das missões em Viseu despedir-se (um pouco antes, um padre italiano de longas barbas, óculos com aros de tartaruga mais as suas aventuras em África, tinha-me desafiado na escola primária, 4ª classe quase acabada). Disse-me que ia para Moçambique em busca de melhor sorte e algum dinheiro, quase nenhum na gaveta familiar naqueles tempos difíceis, mal chegando para honrar a propina mensal que me mandava pelo correio, por vezes com atraso e desculpas na reitoria. Indiferente à notícia, não acreditei que partisse, tantas vezes ele o tinha repetido em casa e outras tantas demovidas por minha mãe, num prenúncio de apurada intuição feminina que adivinhava futuro trágico. E, por isso, a ela haveria de se queixar, magoado e triste, da minha reacção anormal. Chorei depois, quando ela mo confirmou por telefone, ia ele já no alto mar, e muito mais ainda, quando, mais tarde, me contou aquele seu desabafo. Que infelicidade a minha, mal sabia que não mais o tornaria a ver. Tinha 32 anos, era jovem, o apelo de África gritava-lhe fundo na alma, Lourenço Marques (Maputo) não lhe saía do pensamento, já ali tinha estado anos antes quando mobilizado nos finais da 2ª guerra mundial. 


Meu pai era sapateiro ou, conforme assento do BI que guardo comigo, industrial de sapataria, um eufemismo sem a carga negativa do anátema lançado sobre a profissão, desde os tempos da antiguidade, pelo grego Apeles. Meu pai, se tivesse sido o interlocutor, responder-lhe-ia repentista, irreverente e frontal como era seu timbre, que sim, era sapateiro mas sabia “ir além da chinela”, réplica de desdém perante a soberba e arrogância do mestre pintor. Apesar de excelente artista nesta profissão de solas, gáspeas, viras, ilhós e cabedais, com um poder criativo invulgar, opinião comum, não gostava lá muito da arte que aprendera à míngua de outras soluções ou voos mais altos numa terra de horizontes, naquele tempo, encobertos pelas faldas do Caramulo, da Gralheira e do Ladário. O BI também o referencia como “carteiro supranumerário dos CTT”, carteiro de corneta (de chamar duas vezes) para folgas e de domingos e feriados (o correio, nestes dias, era distribuído dentro do edifício dos CTT, após a missa das onze). Este gancho de recurso fora-lhe arranjado pela saudosa Alice Neves, a chefe daquela estação postal, para ele poder ganhar mais uns magros e tão desejados tostões. O seu currículo não ficava por aqui. Desportista, ginasta com um curso de educação física tirado na tropa, fazia parte da equipa de futebol local. E era músico, primeiro caixa na banda dos bombeiros, espavento de arte nesse instrumento de percussão donde conseguia tirar rufos vibrantes e continuados, sobrolho franzido e carregado, sempre que o mestre Moreira e a pauta lhe davam entrada. Também era bombeiro voluntário; rápido e ágil, saltava por cima da pequena banqueta do ferramental, avental sujo de colas e tintas atirado fora num repente, quando tocava o sino a rebate na torre da igreja ali ao lado por mor de incêndio ou desastre. Era dos primeiros a chegar ao diminuto quartel da Praça, paredes meias com os CTT e, tal como a igreja e a escola, a escassos 200 metros da oficina nos baixos da nossa pequena e modesta casa. Por último, legionário, obrigação do regime político de Salazar, com prática de ordem unida e manejo de armas, em manhãs de domingos aprazados, no quartel frente à então cadeia comarcã e ao outro quartel, o da GNR.

Como pessoa, dizem (e eu confirmo), era um homem bem-posto, modesto no vestir mas sempre asseado e limpo, vaidoso até, apesar do trabalho sujo da arte, exigindo sempre a minha uma mãe camisa branca bem passada a ferro e engomada nos punhos e colarinho (à moda antiga, um trabalhão, recordo-o), fato e gravata para ir para os correios e missa das oito. Tinha sorte (e fazia por isso) com o sexo oposto. Não raro, quando a banda ia tocar fora, trazia para casa direcções de moças suas fans e do seu estilo, uma mistura entre Clark Gable, estrela de cinema do seu tempo e de “E tudo o vento levou”, e Michele Placido, actor recente, o aguerrido comissário Corrado Cattani da série italiana sobre a máfia, “O Polvo”, actor que eu acho muito parecido com ele.

Filhos de sapateiro, eu e meu irmão nunca andámos descalços, mesmo quando queríamos imitar os nossos colegas de escola (ele não deixava), descalços a maioria, tamancos de proa ou chancas com base de madeira e cardadas só em dias de festa. Era uma questão de orgulho para o pai, sapateiro pobre mas honrado e vaidoso dos filhotes (chegariam mais duas) até porque servíamos de modelos para os sapatos e botas que ele criava, alguns, coisa inédita, em pele de cobra, outras, as célebres botas mexicanas, sucesso que deu brado na terra. Era um verdadeiro artesão na criação de um qualquer par de sapatos. Enquanto carteiro, palmilhou todo o concelho a pé ou na velha pedaleira comprada a prestações a Abílio Ferreira, pai dos irmãos Figueirinhas, homens da sua geração, o Luís José, coronel e oficial distinto de administração militar mobilizado para as colónias mais que uma vez e que eu próprio, mobilizado muito mais tarde pela força aérea, haveria de encontrar em Luanda e o José Luís, médico, exímio futebolista local e da Académica quando universitário em Coimbra.

Muito mais haveria para contar. Fica esta memória em sua homenagem, homenagem que é extensiva a todos os que, homens do seu tempo, estiveram, como ele, na banda, nos bombeiros ou no futebol ou exerceram a profissão de sapateiro e de carteiro na vila e concelho de Oliveira.



Oliveira de Frades, conta-me como foi (ou é) – 3

Escrevi sobre a D. Antonieta Rodrigues no número anterior. Hoje  falo do marido, Alexandre Correia de Lemos que tinha três irmãs: uma em S. Pedro do Sul, Lídia, casada com Edgard Vasconcelos, do café Edgard; duas em Viseu, Aurélia e Maria Celisa e dois irmãos: Joaquim Correia, funcionário de finanças em Vouzela e Lisboa, pessoa bem disposta.  Quando jogava futebol aparecia sempre de boina na cabeça e, na marcação de grandes penalidades atirava aos guarda-redes esta provocação: “queres de tiro ou de rosca?” O outro, o mais novo, Zé Correia como o pai, já não conheci pois, era eu bebé de colo,  falecera num desastre de mota na curva da Boavista. Alexandre Correia foi, de facto, um dos grandes de Oliveira de Frades dos últimos tempos. Grande na estatura, grande na solidariedade, grande, até, no feitio algo azedo, truculento e sem paciência, sobretudo perante a estupidez, mesmo aquela, óbvia e natural, dos aprendizes que iam lá para a garagem. A propósito, vale a pena contar uma conversa que ouvi, numa qualquer noite mal dormida, a meu pai e minha mãe, jovem casal de posses muito modestas e muito atormentado porque  o colégio da terra ia fechar e eu estava quase na 4ª classe e, como tal, ficaria por aí, sem grande futuro. Pois, dizia o meu pai (neto, filho e sobrinho de funileiros, picheleiros, mecânicos e serralheiros), o meu futuro passaria por ir aprender mecânica na garagem do Alexandre Correia, que era mesmo ali em frente à nossa pequena casa. Era só atravessar a rua. Minha mãe não gostava da ideia argumentando que ele era boa pessoa mas  muito  bravo com os empregados e eu era tão franzino para levar uns estalos, a pedagogia da época e que o saudoso Alexandre cumpria a preceito.  Deus acabou por resolver-lhes o problema quando eu, sem saber como ou pensando nos meus vizinhos seminaristas Manuel e António Neves, rendido às façanhas de África contadas por um missionário italiano de barbas grandes e compridas até à barriga, Ângelo de La Salandra, levantei o braço e disse que também queria ser missionário. Outras estórias, Deus meu. E não se pense que foi forma airosa para escapar à sina da garagem ou poder continuar a estudar. Não, porque ser mecânico não me desagradava (a genética tem destas coisas e até tenho algum jeito para desmanchar motores). E, já agora, devo confessá-lo, a estória dos outros é também a minha estória pessoal, esta minha vocação só foi “atraiçoada”, estava eu com 15 anos e no 5º ano, porque não consegui ultrapassar a velha questão do celibato, uma maneira airosa, sub-reptícia e eufemística de dizer que, com aquela idade, as “cócegas” já eram muitas e, claro, apesar dos conselhos, não as pude vencer. Deixemo-nos de biografias e continuemos com Alexandre Correia. Devo-lhe e ao comandante Chico Moreira ter vindo ao Porto, cidade onde hoje resido há vinte anos, a primeira vez (teria os meus 6 ou 7 anos) no primeiro carro dos bombeiros (que ainda existe), novo e já carroçado e pintado na garagem, para ser equipado com uma moto-bomba aqui no quartel dos Bombeiros Sapadores na Constituição e que o equiparia (Um aparte e para que conste: foi seu comandante, até há pouco tempo, um conterrâneo, filho do Aristides Rocha, o capitão Rocha. Foi uma viagem inesquecível com o saudoso Alexandre ao volante e eu, o Luís Alberto e o António Cândido (filho do comandante e hoje advogado em Viseu) a dividirmos a tarefa do toque da sineta no aproximar de cada curva da velha EN16, que eram muitas para nossa alegria e, depois, a passagem sobre a ponte D. Luís e o espavento de uma grande cidade, coisa por nós nunca vista.  O Porto era o Porto e ir no pronto-socorro vermelho e novo dos bombeiros, para crianças da nossa idade, nem vos falo nem vos conto.


Alexandre Correia e o Chico Moreira deram essa imensa alegria ao menino que fui e que aqui recordo com certa melancolia (a mesma, de Benjamim Franklin, que referi no 1º capítulo). Esteve presente em todas as instituições locais e a todas elas prestou o seu contributo: na fundação da Misericórdia, do Hospital, dos Bombeiros, da Cantina  Escolar.

Igual a si próprio, trabalhador obstinado,  era rezingão, como disse, mas com um coração abrangente, apaixonado e solidário, Alexandre Correia de Lemos montou a primeira garagem de automóveis em Oliveira quando estes não eram mais que uma dúzia. Recordo que, na Praça Luiz Bandeira, existiam quatro carros de praça ou de aluguer (o anglicismo táxi ainda não chegara a Portugal) que pertenciam ao Celestino Pinheiro de Almeida, ao Alfredo Choupeiro, ao Manuel Pereira e ao Vicente, de Nespereira.  De um, deles ainda registo na minha memória  a matrícula: PO-11-61. Qual deles., não sei. Outros dois carros de praça vinham à vila todas as semanas: o do António Pinheiro de Almeida, de Alcofra (irmão do Celestino), que almoçava e dormia na pensão da Zulmirinha (também nesta praça, ela própria uma instituição e de cujas lojas, tabernas e outro comércio falarei adiante) e o do Quelhas de Ribeiradio. Na vila poucos possuíam automóvel nessa altura: o Dr. Diamantino, o dentista Zé Alexandre, o Dr. Morgado e pouco mais. Camionetas havia algumas, nas famílias de transportes, sardinheiros e peixeiros: Choupeiro, Florindo (Arinho) e Poças; e no grande armazenista e empresário de Pinheiro, Celestino Ferreira Martins, que também possuía carro.